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Beatlegrafia - Revolver (1966)





“Desligue sua mente, relaxe e flutue correnteza abaixo...” canta John Lennon de forma etérea na abertura lírica da última faixa, Tomorrow Never Knows. O conselho não poderia ser mais apropriado depois da enxurrada sonora que o disco proporciona. E, convidativa também! Dá vontade de ouvir tudo de novo. E, de novo. E, de novo...
Revolver começa com a contagem despretensiosa de Taxman, na qual George Harrison dá uma espetada psicodélica nos altos impostos da terra da rainha. Eleanor Rigby, talvez seja a faceta mais estranha que a pop music já tenha usado para falar de solidão até então. Até hoje ainda o é! As cordas, a melodia triste...
John Lennon dá as cartas no desbunde à preguiça em I’m Only Sleeping, chamando de loucos os que o chamam de preguiçoso no mundo corrido da Swingin’ London do meio dos anos sessenta... Enquanto isso George nos fala sobre a finitude das coisas e da urgência de amar e de ser amado, no embalo de um bailão indiano chamado Love You To.
Here There and Everywhere, com seu arranjo sublime e vocal de apoio à lá Motown, prega o amor em qualquer lugar. Paul McCartney, romântico em uma balada deslumbrante para dar aquele xaveco certeiro na moça incauta dos seus sonhos... A lúdica Yellow Submarine nos leva pra debaixo das ondas do mar verdejante e do céu azul onde todos têm tudo de que precisam vivendo dentro do tal submarino amarelo e ouvindo uma banda que começa a tocar. Loucura pouca é bobagem... Mas, funciona!
John tenta convencer uma garota paranoica e depressiva de que tudo ficará bem igual a como era quando ele era garoto, em She Said She Said... Então o clima sofre uma virada e Paul dá bom dia aos raios de sol, com um fraseado de piano matador na otimista Good Day Sunshine.
Sabe aquela frase “você está tão feliz, parece até que viu um passarinho verde”? Essa é a sacada de And Your Bird Can Sing. Todo mundo tão feliz, todo mundo tão contente que dá vontade de rachar o bico de rir… E eles riram muito! Sugiro uma conferida no outtake na versão do Anthology... Qual seria o combustível de tanta felicidade?
‘For No One’ traz McCartney travestido como um pequeno Schubert na tristeza da descoberta de que o grande amor da sua vida não te quer mais... Pra todos os males, há toda cura. Então, eis que surge ‘Dr. Robert’! O gente fina das horas desesperadas. Aquele que trazia o combustível para a alegria sem fim de And Your Bird Can Sing.
Segue-se com a timidez de George, que é traduzida em versos em I Want To Tell You e a sua dificuldade de conversar com a garota é pintada em cores nas conversas que ele tem consigo mesmo, sobre ela!
Got To Get You Into My Life que, a princípio, parece ser uma das músicas mais românticas dos Fab Four mas, que na verdade, a garota seria uma tal de Maria Joana... Ah, Dr. Robert... Quem imaginaria que os Beatles colocariam uma ode à maconha em um dos seus discos, conforme Paul revelaria anos mais tarde em sua biografia Many Years From Now, de Barry Miles?
Por fim, do alto das montanhas do Himalaia surge o convite de John Lennon, retirado do Livro Tibetano dos Mortos, na caleidoscópica Tomorow Never Knows, para fechar essa obra-prima com chave de ouro (e ácido). Desligue sua mente, relaxe e flutue correnteza abaixo... Revolver continua batendo um bolão depois de 53 anos!

Por Alysson de Almeida


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