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Yellow Submarine - A onda lisérgica e a valorização da infância nos anos 1960




Completa-se hoje 53 anos do lançamento de "Yellow Submarine" que saiu como lado B do compacto com "Eleanor Rigby". Para celebrar a data e inaugurarmos a sessão "Beatlelogismo" do nosso blog, vamos abordar um pouco da atmosfera psicodélica da época, o crescimento do mercado cultural infanto-juvenil e tudo que cercou a criação e gravação dessa faixa icônica do álbum "Revolver".

Em meio à onda lisérgica dos anos 1960, o lançamento de uma música infantil não soava deslocada do repertório de vanguarda da época. Para os que usavam ácido, a infância não era mais um período da vida do qual se saía ao crescer, mas um estado de espírito ao qual se aspirava.
Um resultado disso foi uma nova apreciação da literatura infantil à época: Títulos de literatura fantástica como “O Hobbit” de J.R.R. Tolkien, “As Crônicas de Nárnia: o leão, a feiticeira e o guarda-roupa” de C.S. Lewis, contos de fada, rimas infantis e poesias românticas como “Canções da inocência e da experiência”, de William Blake. Além disso, é nesse período que animações como “Fantasia” da Disney e séries de desenhos animados que se tornariam clássicos, como “Turma do Manda-Chuva”, “Os Jetsons”, “Space Ghost”, “Os Flinstones” dentre outros, surgiam como atrativos para o público infanto-juvenil.

John Lennon defende a composição de Yellow Submarine como uma grande ruptura em relação ao que esperavam dos Beatles naquele momento: “essa música fez com que fôssemos vistos não somente como um grupo beat, mas como um grupo que faz música e está à procura de novos sons”.

Segundo o escritor Steve Turner, a ideia de escrever uma canção infantil
partiu de Paul McCartney. Seu desenvolvimento levaria à história de um menino que ouve os contos de um velho marinheiro sobre suas aventuras na "terra dos submarinos" e decide navegar para tirar a prova. Após quebrarem o ciclo das canções de amor com o lançamento dos singles "Paperback Writer" e "Rain", era a vez de ousar novamente e criar uma canção infantil. O uso de palavras curtas na letra da música e a melodia simples tinham a clara intenção de atingir o público infantil e fazer com que crianças pudessem aprendê-la com rapidez e cantá-la. Essa simplicidade, é claro, contribuiu para que Yellow Submarine fosse eleita como a música de Ringo no Revolver.

Enquanto a escrevia, Paul visitou o cantor Donovan em seu apartamento em Maida Vale. "Costumávamos aparecer sem avisar na casa um do outro", lembra Donovan. Meu álbum "Sunshine Superman" estava para sair e nós tocamos as nossas canções mais recentes. Uma das que Paul tocou era sobre um submarino amarelo, mas ele disse que ainda faltava um verso ou dois e perguntou se eu gostaria de contribuir. Eu saí da sala e voltei com 'Sky of blue and sea of green - In our yellow Submarine'. Não era uma criação sensacional, mas Paul gostou o suficiente para usar na gravação".

Sobre o processo de gravação, conta Geoff Emerick, o engenheiro de som dos Beatles em Revolver, que desde a primeira sessão, dirigida por ele, já que George Martin estava afastado por uma forte gripe, a atmosfera de Yellow Submarine foi cercada por uma alegria quase juvenil dos garotos. Essa alegria se seguiria até a sessão onde os corais para a música foram gravados. Sobre essa sessão, em particular, Geoff relembra que “um grupo barulhento começou a chegar, incluindo Mick Jagger e Brian Jones, a namorada de Jagger, Marianne Faithfull e a esposa de George Harrison, Patti. Phil e eu colocamos alguns microfones de ambiente pelo estúdios, e eu decidi também dar a cada um deles um microfone de mão com um cabo bem longo, para que pudessem se movimentar livremente.”

Todo aquele cenário influenciado pela maconha era potencializado pela coleção inteira de instrumentos de percussão da EMI e caixas de efeitos sonoros espalhadas pelo estúdio, com pessoas pegando sinos, apitos e gongos. Para simular o som de submarino submergindo, John pegou um canudo e começou a soprar bolhas em um copo. Lennon, inspirado, quis levar as coisas a outro nível e sugeriu que o gravassem cantando embaixo d’água. Após algumas tentativas de gravar com um microfone submerso em uma garrafa, acabaram abandonando o resultado.

Para preencher o espaço de dois compassos no meio da canção, a inventividade do período de Revolver falou alto: Utilizaram gravações de Sousafones dos arquivos da EMI e para burlarem a lei britânica de direitos autorais, picaram a fita em vários pedaços, jogaram para o alto e emendaram aleatoriamente. Segundo Emerick, “o resultado deveria ter sido aleatório, mas, de alguma forma, quando eu colei os pedaços, o trecho ficou praticamente da mesma forma que ele era originalmente” o que em si, era um problema. George Martin acabou instruindo que se simplesmente se trocasse dois pedaços e o resultado foi o que se ouve na versão final da música.


A canção foi lançada como lado B de Eleanor Rigby em 05 de agosto de 1966, mesmo mês em que Revolver chegou às lojas, e rapidamente se espalhou o rumor de que o submarino amarelo seria uma referência velada a drogas. Em Nova York, comprimidos de Nembutal passaram a ser chamados nas ruas de “submarinos amarelos”. Paul negou as alegações e disse que o único submarino comestível que conhecia era um tipo de doce que experimentara na Grécia, quando estava de férias. Era preciso embebê-lo em água e por isso chamavam-no de “submarino”. “Eu sabia que as pessoas iam encontrar conotações em ‘Yellow Submarine’”, diz ele, “mas era só uma canção infantil, de verdade”.

Por Leko Soares

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