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Era um garoto como eu, que amava os Beatles... E eu, os Rolling Stones!





por Flávio Nery

O meu primeiro contato com o "Fabulous Four” ocorreu ainda na minha infância. Mesmo que eu tenha vindo ao mundo três anos após o "sonho ter acabado".

Embora eu não seja um "expert" na banda, aqueles quatro pôsteres gigantes em preto-e-branco, com o rosto de cada um deles estampando as paredes da loja do meu saudoso pai, durante a década de 70, nunca saíram da minha memória. Assim também como as suas músicas, quando as ouvíamos em casa. Considero ali o ponto inicial da minha paixão por aquele estilo único que é o Rock, que veio a se confirmar alguns anos depois com a vinda do Kiss pela primeira vez no Brasil, em 1983. Mas essa já é uma outra história!

É incrível imaginar que houve uma época em que o conceito de "banda de Rock" ainda era novidade! Nas capas de discos e em todo show business, o que aparecia em destaque era apenas o nome do chamado crooner. De repente, aparecer 4 cabeludos, num formato diferente e funcionando como uma unidade... É óbvio que o mundo foi pego de assalto! E, o mais interessante - sem nenhuma pretensão, desencadearem ali não só a maior revolução musical, mas principalmente comportamental, vista até hoje!



O pioneirismo da banda não foi "apenas" nesse aspecto. Eu destacaria também toda a sua ousadia no experimentalismo sonoro, algo que contagiaria até mesmo Jimi Hendrix, outro gênio em experimentalismos. Como no episódio clássico em que Hendrix apresentou durante um show a música Sgt. Peppers,  poucos dias após o disco homônimo ter sido lançado. E não somente Hendrix, como veio a influenciar também o estilo mais experimental do Rock que dominaria a década seguinte: O Rock Progressivo. Apenas para citar um exemplo, a faixa ‘Every Little Thing’ de Lennon e McCartney foi gravada no primeiro álbum da banda inglesa Yes, em 1969.

E as influências do quarteto de Liverpool não paravam por ali... No Punk Rock, talvez o exemplo mais clássico sejam os Ramones. Para quem não sabe, Paul Ramone era o pseudônimo que Paul McCartney usava com o intuito de "escapar" do assédio dos fãs e da imprensa quando se hospedava em hotéis.

No Heavy Metal, vale citar a música Helter Skelter, a qual vários historiadores consideram o "embrião" do estilo. E, ainda dentro da cena Heavy/Hard, inúmeras bandas gravaram alguns de seus grandes clássicos. Apenas para citar algumas: Running Wild (Revolution), Trouble (Tomorrow Never Knows) e Motley Crüe (Helter Skelter).

  

Ozzy Osbourne afirmou várias vezes que o álbum Sgt. Peppers o motivou a querer fazer parte de uma banda de Rock. Lemmy Kilmister, por sua vez, disse nunca ter tido a pretensão de gravar uma música da sua banda preferida, justamente por considerar uma "heresia" tentar reproduzir algo que por si só já é perfeito. E eu, como fã incondicional dessas duas lendas do estilo o qual eu venero e venerarei até o último dia da minha vida, irei discordar desses mestres? Claro que não!

Assim como também não irei discordar do meu maior mestre: meu pai. Aquele mesmo, que na minha infância conseguiu me provar que os Beatles eram a melhor banda do mundo! E que, anos depois na minha adolescência, eu o "desafiaria" dizendo que os Stones eram melhores! Primeiro porque faziam um som mais visceral - o que tem mais a ver com a minha identidade musical. Depois, pelo fato de eu ser um rebelde nato e, por sermos de gerações diferentes, eu achava que não era sensato pra um "rockeiro", ter a mesma opinião que o seu pai. Mesmo se o assunto fosse o Rock n Roll... Quanta tolice da minha parte!

Éramos sim de gerações diferentes, mas quando "discutíamos" sobre Beatles X Rolling Stones, parecíamos dois garotos - muita gente não acredita, mas o Rock é capaz disso - e essa nossa "desavença" se sucedeu até o dia da sua partida ...

Hoje, após 6 anos prestando cada dia mais atenção à sua banda de cabeceira, pude perceber que ele estava certo! Até porque não é segredo pra ninguém que nos anos 60 os Stones os imitavam. Mas, não com o mesmo talento, é claro!

Por isso meu pai, venho aqui a público "dar o braço a torcer", pois mais uma vez e como sempre, você tinha razão! E, com lágrimas nos olhos, fico aqui com a lembrança de quando você era um garoto como eu que amava os Beatles... e eu o Rolling Stones.



Flávio Nery é baixista do Corpse Grinder, uma das mais tradicionais bandas de Death Metal do Brasil, com mais de 30 anos de existência, 6 álbuns oficiais lançados, além de mais de uma dezena de demos, lançamentos ao vivo e centenas de shows por todo o Brasil. 

Comentários

  1. Excelente Flávio, bravo 🤘🤘🤘

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  2. Flávio, Flávio... que texto maravilhoso! Cara, a recordação dos momentos com o seu pai tendo entre ambos duas grandes bandas, cada uma revolucionária, embora os "Fab Four" tenham dado o primeiro pontapé inicial é memorável.
    Eu também cheguei a acreditar que os Stones eram os maiores e ainda são, contudo além deles há um velho titã que nunca adormeceu. Hoje encaro isso co mo naturalidade. Os Stones beberam na fonte do velho e querido Blues, enquanto os Beatles deslumbraram uma nova vertente: o Pop Rock.
    Para definir melhor os Beatles são como um Papa, enquanto os Stones são um Cardeal, sacou? Não me refiro propriamente à religião, mas sim ao posicionamento de cada um.
    Os Beatles fizeram uma grande reviravolta ( uma Revolution), enquanto os Stones - críticos- não conseguiram uma satisfação (Satisfaction).
    Grande abraço Flávio!

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