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Os Beatles e o Submarino de Metal (Os FabFour e sua importância para a Música Pesada)


- Os FabFour e sua importância para a Música Pesada –


por Leko Soares

Há 50 anos, numa simbólica sexta-feira, 13 de fevereiro de 1970 , vinha à luz o primeiro álbum genuinamente Heavy Metal da história: Black Sabbath, obra-prima da icônica banda banda homônima, forjada nas trevas da cinzenta cidade industrial de Birmingham, na Inglaterra. Aproveitando as comemorações em homenagem ao meio século do nascimento oficial do Heavy Metal, o Beatlelogias preparou a semana especial "Os Beatles no Metal". Durante essa semana vamos abordar as raízes da obra dos Fab4 na gênese da música pesada e a influência de sua obra em bandas e músicos do Metal no mundo, e claro, no Brasil. All aboard!

As pré-concepções da música Beatle e a cena Headbanger

“Os reis do Rock alegrinho” (iê, iê, iê), com letras bobas sobre garotas e o amor livre” é somente uma das muitas generalizações usadas por leigos para rotular a música dos Beatles. Qualquer fã minimamente informado entende que esses pré-conceitos são concepções vagas baseadas muito provavelmente no início da carreira da banda e na ponta do Iceberg de sua obra: as canções mais clássicas e assimiláveis que ainda permeiam o mainstream até os dias de hoje.
É inegável, entretanto, que esse tipo de generalização faz parte do processo de construção e consolidação da mitologia que os cerca e que essa associação dos Beatles à alegria, amor e banalidades contribuiu de certa forma, para que boa parte da “Cena Headbanger”,  uma forte cena ligada à música conhecida como Heavy Metal (nessa matéria, sempre que possível, vou evitar me ater às múltiplas subdivisões do estilo), não atribua aos Beatles o respeito e a atenção que sua obra merece. Diferente do que acontece com outras bandas clássicas que não pertencem organicamente ao Metal como Led Zeppelin, Deep Purple e até mesmo os Stones, os Beatles, em geral, não são reconhecidos diretamente como influências para a construção dos alicerces do tipo de música que viria a ser conhecida como Heavy Metal.




O que essas noções pré-concebidas não mostram é que o “Todo” da obra dos FabFour é muitas vezes sombrio, difícil, avant-garde, místico, pra não dizer esquisito, contestador e revolucionário – elementos primordiais do que de fato permeia e identifica o universo da música pesada e atrai jovens desde os anos 70 até os dias atuais.

Quando comecei a buscar material para escrever essa matéria, busquei na minha própria história alguns elementos que me ajudassem a entender quais fatores me levaram de um Headbanger nato (o que ainda sou) para um beatlemaníaco inveterado.

No fim dos anos 1990, eu era um jovem cabeludo que tocava guitarra em uma banda de Metal no interior de MG. Conheci os Beatles no início dos anos 2000, por intermédio do Alysson Almeida, hoje meu parceiro de blog e profundo estudioso da obra da banda; após uma certa dose de insistência, já que em outras oportunidades, eu havia me recusado a ouvir a música dos caras, exatamente por considerá-las “alegres demais para o meu gosto”. Foi aí que tive contato com o “Revolver”, o álbum que, de fato, eu conheci primeiro dos Beatles e ainda me lembro do impacto quase imediato que “Eleanor Rigby”, “I’m Only Sleeping”, “She Said She Said” e principalmente, “Tomorrow Never Knows” tiveram sobre a minha percepção do que se tratava, de fato, a obra dos caras. Me lembro que a partir daí, quanto mais eu conhecia os álbuns, mais eu começava a fazer associações entre trechos de músicas dos Beatles e a sonoridade das bandas de Metal que eu ouvia à época. Esse passou a ser um exercício costumeiro em minhas audições, algo que repito invariavelmente até os dias de hoje e que me estimulou a buscar elementos na música e na história dos Beatles que os liguem diretamente ao Heavy Metal.

Afinal, Helter Skelter é a primeira música de Heavy Metal da história?


É chover no molhado apontar “Helter Skelter” como a primeira música de Heavy Metal a ser escrita. Muitos discordam e o próprio Paul rejeita esse título: "Não, eu nunca quis este crédito. As pessoas dizem isto, mas se você pensar, foi no começo do Heavy Metal, e estávamos tentando soar pesados. Ouvi Pete Townshend (The Who) dizer que eles faziam a música mais suja de todos os tempos, e estávamos tentando soar como eles."
Porém, embora canções como “You Really Got Me” e seu riff magistral composto em 1964 já apresentasse características do que viria a ser o Heavy Metal nos anos posteriores, é inegável que “Helter Skelter” é a faixa que reúne mais elementos da música pesada em uma mesma faixa.


Vejamos:

1.guitarra distorcida, barulhenta
2.um riff que prioriza palhetadas para baixo em vários momentos da música
3.a bateria que tem um início que muitas bandas de Metal se matariam para ter escrito primeiro (acelere um pouco o ataque de Ringo na caixa e temos um bate-estaca característico do Metal Extremo, rs),
4. a condução direto no prato de ataque,
5. vocais gritados e desequilibrados do Paul ao longo de toda música.

Pronto, temos uma receita do que define a música pesada dos anos seguintes. Como bônus, temos um falso final, elemento utilizado várias vezes por bandas de Metal em seus álbuns. Como exemplo, posso citar a faixa “Victory” do álbum “Youthanasia” do Megadeth, uma das principais bandas de Thrash Metal de todos os tempos.

Lemmy Kilmister, baixista e vocalista do Motörhead e um dos maiores ícones da história do Metal mundial, certa vez escreveu em sua autobiografia: “... os Beatles também eram homens duros. Brian Epstein os limpou para consumo em massa, mas eles eram tudo menos maricas... Ringo é do Dingle, que é como a porra do Bronx.” Beatlemaníaco declarado, Lemmy sempre proferiu aos quatro cantos sua devoção à música dos FabFour. Em entrevista à Billboard americana, em 2011, ele disse: "Os Beatles sempre foram meus garotos. Todo mundo na Inglaterra gostava ou deles ou dos Rolling Stones. Eu era Beatles. Eu sempre ficava impressionado por "You can't do that". Quando eu ouvi, eu pensei que fosse um grupo de soul. Não pareciam caras bancos".

Os elementos das músicas dos Beatles na Música Pesada

Falando de abordagem musical, é notável a quantidade de elementos de melodias, letras, harmonias e estruturação musical criadas pelos Beatles que estão espalhadas em músicas de bandas icônicas de Heavy Metal - O refrão de ‘Carry That Weight’ me fazia erguer os punhos como os refrãos épicos do “Manowar”, uma das bandas mais “true” e puristas da cena metálica.

Quem conhece o “Helloween”, banda que inventou o subestilo conhecido como Metal Melódico (Power Metal nos dias de hoje), com certeza se lembra do final característico de uma de suas músicas mais famosas, “Dr. Stein”. Aquela nota solitária de piano nada mais é que uma referência óbvia ao piano tocado em 8 mãos ao fim de “A Day in the Life”. Aliás, o Helloween tem muita coisa dos Beatles espalhada em sua vasta discografia. Só pra citar um exemplo, “If I Could Fly”, faixa do álbum “the Dark Ride” de 2000 parece saída diretamente de um dos 5 primeiros álbuns dos FabFour. Sem contar o cover de “All My Loving” contido no álbum “Metal Jukebox” de 1999.




O final de ‘I Want You (She’s So Heavy)’ inspirou a progressão soturna no final de “A Nightmare to Remember” do Dream Theater, banda precursora do Metal Progressivo e que tinha em Mike Portnoy, seu baterista à época, um confesso beatlemaníaco, com direito a um projeto chamado “Yellow Matter Custard”, dedicado somente a tocar covers dos Beatles, ao lado de lendas do Hard Rock e Prog, como o guitarrista Paul Gilbert (Mr.Big) e do multi-instrumentista Neal Morse.

Como principal letrista do Dream Theater, em um trecho na letra de “Octavarium”, talvez a mais genial obra da carreira da banda, Portnoy faz trocadilhos com várias músicas consideradas como suas referências. Nesse trecho, é possível encontrar 3 citações a músicas dos Beatles:

Sailing on the Seven seize
The Day tripper Diem's ready…
Lucy in the Sky with diamond
Dave's not here I come to save the
Day for nightmare
Cinema Show me the way to
Get Back home again




Aliás, o "Abbey Road" parece ser um álbum prolífico em inspirar bandas de Heavy Metal e Hard Rock. O que falar da semelhança de sonoridades de “The End” com os elementos centrais que caracterizaram a música do Kiss ao longo de toda sua carreira. Sobre esse fator Beatles, o próprio Gene Simmons, líder do Kiss declarou em 2010, ao ‘Liverpool Echo’ que ele sempre quis vir para a cidade natal dos Beatles. E ainda acrescentou sobre a precoce influência dos garotos de Liverpool em sua vida: "Eu estava assistindo ao Ed Sullivan Show e eu os vi. Aqueles garotos magros, um pouco andróginos, com cabelos compridos como garotas. Me surpreendeu que aqueles quatro garotos do meio do nada pudessem fazer aquela música...Eu estava assistindo a música. Eu estava ouvindo com meus olhos e eu notei que as garotas estavam gritando e que eles estavam tocando seus próprios instrumentos.”


Até mesmo a banda considerada a criadora do Heavy Metal não escapa à influência direta dos Beatles: Ouça It’s Alright, faixa do álbum ‘Technical Ecstasy’ do “Black Sabbath” e veja se não remete à sonoridade de baladas McCartianas como “Hey Jude” e “Let it Be”. Nesse mesmo álbum, encontramos na roqueira “Rock n’ Roll Doctor” (qualquer semelhança com Dr. Robert pode não ser coincidência, rs) um riff no refrão muito semelhante ao riff inicial de “Rain”.  O próprio Ozzy Osbourne, frontman do Sabbath e talvez o maior ícone vivo do Heavy Metal, confessa que se decidiu pela música ao conhecer os Beatles: "'She Loves You' teve um grande impacto em mim. Lembro exatamente que estava andando pela Witton Road, em Aston, tinha um rádio transistorizado e quando aquela música tocou, sabia o que queria fazer na minha vida”. Em um depoimento à campanha de caridade 'End The Silence, em 2017, o Madman disse: "Eu me tornei um ávido fã dos Beatles - eles eram ótimos. Devo minha carreira a eles, porque me deram o desejo de estar na área da música". Em seu álbum de covers lançado em 2005, Ozzy gravou uma versão de “In My Life”, além de “Working Class Hero”, música do álbum Plastic Ono Band, de John Lennon.


A música oriental, hoje elemento comum na música de diversas bandas de Metal, desde mais melódicas como Kamelot, Avantasia e Mirath até mais extremas como o Nile e Opeth, deve muito de sua popularização no Ocidente à sua introdução e adaptação aos moldes da música ocidental nos álbuns dos Beatles, principalmente através das geniais criações de George Harrison em “Love You To” e “Within You Without You”.


Embora seja um exercício tentador realizar uma imersão ainda mais profunda de cada elemento da música pesada que tem um pouquinho de Beatles em sua essência, acredito que o amigo leitor que chegou até aqui já tenha percebido que, mesmo que muitas vezes subestimado, é inegável o valor da música dos Beatles também na ponta mais extrema do Rock n’ Roll, que é o Heavy Metal e suas inúmeras vertentes. Não poderia ser diferente essa forte presença beatle no DNA da música pesada, visto que, a banda, se devidamente analisada como um fenômeno histórico do século XX, são parte determinante das mudanças na cultura mundial dos últimos 50 anos, seja na música, na arte, na moda ou no comportamento.

Portanto, mesmo que você seja o mais radical dos Headbangers (em tempo: é assim que se chama o fã de Metal. ‘Metaleiro’ é quem trabalha com metalurgia, rs), você deve aos Beatles, se não admiração incondicional, ao menos reconhecimento e respeito à sua obra porque mesmo no mais violento e veloz dos blast-beats pode ter ali um pouco de poeira estelar chacoalhando das vibrações de Helter Skelter!


Up the Beatles!

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