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Crônica 8 - "1,2,3... Gravando!" - A sessão de Please Please Me




Londres, 11 de fevereiro de 1963.


O último boato da cena rocker de Londres que dominou as conversas durante todo o ano passado, é que os Beatles, banda de relativo sucesso de Liverpool, tinham sido dispensados categoricamente por Dick Rowe da gravadora Decca, após uma sessão no dia primeiro de janeiro de 1962 nos estúdios de Broadhurst Gardens.

O que corre é que o Sr. Rowe teria dito a Brian Epstein que “bandas com guitarras estão em franca decadência, Sr. Epstein” e, mesmo assim, assinou com Brian Poole and the Tremeloes, uma vez que eles sendo de Londres, tornavam a logística mais acessível do que com os rapazes de Liverpool.

Sendo eu quem toma conta dos pagamentos pelos aluguéis dos estúdios da EMI em Londres, me surpreendi quando cheguei de manhã e vi um registro de pagamento de 400 libras por um dia de gravação agendado para os Beatles para hoje, 11 de fevereiro, com produção de George Martin, do selo Parlophone. Afinal, esse retorno deles aos nossos estúdios era esperado por todos há meses!




Intrigada, liguei para o meu chefe Ron White para confirmar o agendamento
da banda e, então ele me disse: ‘Meredith, a banda está agendada, mas George Martin não está satisfeito com o baterista deles’. E, continuou: ‘Procure pelo número de Andy White e diga para ele ficar de prontidão’.

Andy já havia gravado o compacto ‘Love Me Do / PS I Love You’ com eles em setembro passado, pois o Sr. Martin não estava satisfeito com o desempenho de Pete Best o antigo baterista deles. E, o novo, Ringo Starr, tinha se juntado a eles há pouco mais de duas semanas, me parece. ‘Bom é melhor prevenir do que remediar’, pensei comigo. Então, liguei e agendei com Andy para a mesma sessão.

‘Love Me Do’ surpreendentemente tinha chegado ao 14º lugar da parada de sucessos, o que garantiu aos rapazes a oportunidade de gravação de um disco inteiro, segundo um acordo entre o Sr. Epstein e o Sr. White. A EMI não deixaria um sucesso desse ir embora. Não é possível!

Às 10 horas da manhã, os rapazes chegaram com o Sr. Epstein e o simpático motorista deles, Neil. O Sr. Martin então me disse: ‘Srta. Brings, leve os rapazes para tomarem um café, enquanto eu converso com o Sr. Epstein aqui’.

Na cantina do estúdio, todos praceiam sorridentes e brincalhões. Mas, eu percebi que era de nervosismo! Ringo, o baterista, parecia o mais nervoso deles. Talvez por conjecturar que poderia não tocar na sessão.


John Lennon e Paul McCartney me contaram que não aproveitariam nenhuma das músicas da sessão da Decca e que tentariam dar mais prioridade ao seu próprio material. Segundo eles, seriam oito composições próprias e seis releituras de músicas mais antigas que eles haviam deixado em ponto de bala, “para não ter erro desta vez”, enfatizou John Lennon, que parece ser o líder da turma.

Eu realmente fiquei boquiaberta com a confiança desses jovens rapazes por dois motivos. Primeiro, por ninguém mais apostava em material próprio e a indústria tinha se tornado um pastiche do que foi feito pelos pioneiros dos anos 50. Depois, pela inteligência, charme e senso de humor deles que, ao que consta, foi o que chamou atenção de Brian Epstein ao contratá-los.

Por eles serem um pouco mais jovens do que eu, me fizeram lembrar da chama de querer conquistar o mundo, de estar aberto às novas correntes e de se deixar levar pelos impulsos! Coisas que meu noivo abomina em mim... Ainda acho que o Rock And Roll vai salvar essa juventude!

A sessão começou por volta das 11 horas e, até na hora que eu estava indo embora, por volta das 18 horas, ainda não havia sequer chegado à sua metade! Take após take, as músicas foram sendo lapidadas e se tornavam atraentes aos ouvidos de todos que estávamos trabalhando lá. O sorriso no rosto do Sr. Epstein era contagiante!

Do que eu pude presenciar, três canções me chamaram a atenção: ‘Please Please Me’, que segundo o Sr. Epstein será o próximo single; ‘Do You Want to Know a Secret’, com o tímido guitarrista George Harrison cantando sobre os vocais de apoio dos colegas e, ‘Twist and Shout’ dos Isley Brothers, na qual Lennon berrava alucinadamente e que, provavelmente, será deixada para uma próxima oportunidade pois a garganta do próprio John já havia pedido arrego. Ah! Ringo estava feliz da vida e gravou tudo até eu deixar o prédio!



Quando eu caminhava para o ponto de ônibus pensei comigo na mancada do pessoal da Decca por ter dispensado uma banda tão jovem e tão bem preparada! Creio que se arrependerão disso no futuro! Enfim, pode ser que eu tenha presenciado o nascimento de alguns sucessos... Tomara! Esses garotos merecem!

por Alysson Almeida

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