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Let it Be - Especial 50 anos (Histórias e Melodias)



por Leko Soares

Let it Be – Histórias e Melodias

“Let it Be” foi o último álbum lançado pelos Beatles, embora sua gravação tenha precedido às sessões de Abbey Road. O projeto que inicialmente se chamaria Get Back, teria seu processo de gravação documentado e culminaria em uma apresentação com a banda tocando as músicas do álbum ao vivo. Como sabemos, o objetivo final nunca se concretizou totalmente e basicamente o que restou foi a célebre apresentação no telhado do prédio da Apple Corps, em 30 de janeiro de 1969.
Nessa sessão reunimos curiosidades sobre o processo de gravação e as ideias que levaram à construção do que viria a ser o derradeiro álbum dos Beatles que hoje completa 50 anos de seu lançamento, em um longínquo 08 de Maio de 1970. Com vocês, Let it Be!



Two of Us – Música que Paul compôs para Linda e que celebra o hábito que tinham à época de “sumirem do mundo”, vagando de carro sem destino para fora de Londres. Para um beatle cheio de compromissos e com uma agenda regrada, era o escape que traria alento àqueles momentos conturbados em que Paul se encontrava. O verso “two of us riding nowhere” (nós dois passeando rumo a lugar algum) explica bem a intenção.
Uma última curiosidade: em 2000, o mesmo diretor do filme “Let it Be”, Michael Lindsay-Hogg também foi responsável por dirigir o filme “Two of Us” que narra um hipotético encontro entre Paul e John em seu apartamento em NY, em 1976. Vale muito a pena assistir ao filme e se questionar sobre o que poderia ter acontecido depois. 

Dig a Pony – primeiramente intitulada “Con a Lowry”, em referência ao órgão Lowry utilizado no estúdio. O refrão foi tirado de outra música do John intitulada “All I Want is You” que havia sido composta para Yoko. A ficha técnica original do disco usava esse título. Em 1972, John declarou sobre a música: “Eu estava só me divertindo com as palavras. Era uma canção nonsense. Você pega as palavras, encaixa uma na outra e vê se têm algum significado. Algumas vão ter, outras não.”


Across the Universe – É a faixa mais antiga do Let it Be. Foi gravada originalmente em 1968 e foi lançada em dezembro de 1969 em um álbum beneficiente organizado por Spike Milligan, intitulado 'No One´s Gonna Change Our World'.

John descreve que a ideia da letra surgiu após uma discussão com Cynthia. Ao tentar dormir veio-lhe a frase “pools of sorrow, waves of joy” (poças de tristeza, ondas de alegria). Ele se levantou da cama e continuou a compor até terminar a canção. “Desci a escada e a canção acabou virando algo cósmico em vez de irritado.” John valorizava a métrica da música e acreditava que não conseguiria compor algo daquele tipo novamente, além daquele momento. No fim, era uma música que falava sobre a dádiva de compor e ele descreve bem o momento de inspiração que o levou àquele momento: “Foi como estar possuído, tipo um vidente ou um médium. Você tem que fazer alguma coisa com aquilo. Só aí pode dormir.”
Apesar de admirar a composição, John nunca se conformou com a forma como ela foi gravada: “As guitarras estão desafinadas e a minha voz também”, disse ele em 1980.
Mais uma curiosidade: a brasileira Lizzie Bravo, que inclusive já foi entrevistada pelo Beatlelogias, participou das gravações dos backing vocals de "Across the Universe". 




I Me Mine – Composição de George, ela reflete a mudança espiritual e os anseios pelo qual o beatle passava. “Eu quero, o que pertence “a mim”, o que é “meu” reflete a preocupação com a individualidade que nos impede de atingir um nível mais alto de consciência. Com certeza, essa ideia lírica era influenciada pelas palavras de Krishna no Bhagavad Gita: “Estarão para sempre livres os que renunciam aos desejos egoístas e se libertam da jaula do ego, do “eu”, do “mim”, do “meu”, e unem-se ao Senhor. Este é o estado supremo.” George odiava seu próprio Ego e dizia que passou a se questionar diramente “Quem sou eu?” Daí nasceu "I Me Mine", que é sobre o ego e seus problemas.
Musicalmente falando, um trecho da 'Valsa do Imperador' de Johann Strauss II foi o que inspirou George a criar uma música em compasso 3 por 4.

Dig It – praticamente um interlúdio de 49 segundos no álbum, Dig It nasceu de uma jam em que o grupo tocava “Like a Rolling Stone” de Bob Dylan. O verbo “to dig” era um termo hipster que significava algo como “entender, apreciar, curtir”.
Mesmo sendo uma canção descrita por John como “descartável”, ela refletia a filosofia que os Beatles seguiam desde 1965 de apreciar tudo com uma consciência esclarecida. “A experiência imediata, diária e presente é a razão total e definitiva para a existência de um universo”. Essa era a filosofia de Alan Watts que basicamente resumia a nossa experiência de vida a máxima de "curtir tudo a todo o momento".

Let it Be – Paul compôs Let it Be como uma forma de extravasar seus sentimentos de desalento em relação ao fim dos Beatles que a cada dia se vislumbrava mais claro. “Eu a compus quando todos aqueles problemas com negócios começaram a me desanimar. Eu estava passando mesmo por uma hora sombria.”
John se referia à música como C&G: “isso é country e gospel”. E embora a menção a mother Mary na letra pudesse indicar isso, na verdade Paul estava se referindo a sua própria mãe, Mary McCartney que faleceu quando ele tinha apenas 14 anos: “eu me deitava na cama, ficava pensando sobre o que estava acontecendo e me sentia paranoico. Certa noite, eu sonhei com minha mãe e no sonho ela dizia que tudo iria ficar bem.”


Maggie Mae – é uma adaptação de uma canção tradicional de Liverpool sobre uma prostituta acusada de roubar o soldo de um marinheiro mercante, seu cliente, e mandada para uma prisão australiana como punição. É provável que John tenha aprendido a canção com sua mãe Julia. “Eu me lembro que ela apareceu um dia em 1957, e John estava lá. Ela cantou uma versão não censurada de ‘Maggie Mae’” relatou Michael Fishwick.

I’ve Got a Feeling – A música é uma junção de duas canções: ‘I’ve Got a Feeling’ de Paul e ‘Everybordy had a Hard Year’ de John. A de Paul, otimista como sempre, e a de John era uma litania com os versos todos começando em “everybody”.

Embora, durante as filmagens de Let it Be, John tenha brincado dizendo que tinha começado a compô-la no dia anterior, na verdade, existem imagens registradas pela BBC em dezembro de 1968 em que John a canta ao violão no jardim de sua casa.
Ela foi uma das canções mais ensaiadas em todo o álbum.


The Long and Winding Road – A longa e sinuosa estrada da letra remete aos 25 Km entre Kintyre e o vilarejo mais próximo à fazenda onde Paul morava. “É uma canção triste porque fala do inatingível, da porta à qual você nunca chega. E uma estrada cujo fim você nunca realmente alcança.”
Musicalmente, ela foi inspirada em Ray Charles e é por isso que Paul utiliza acordes de jazz ao piano.
A maior polêmica em torno da música, porém, foi em relação à adição de um arranjo de cordas a mando de Phil Spector que havia sido contratado no início de 1970 para terminar o álbum. Paul não aprovou o arranjo e pediu que fosse retirado, o que não aconteceu. Esse é apontado como um dos estopins que o levou a anunciar sua saída da banda em abril de 1970.
A música foi lançada como single  nos EUA em maio de 1970, indo diretamente ao topo das paradas.

One After 909 – a canção mais antiga de Lennon e McCartney a ser gravada pelos Beatles. Fazia referência ao trem que eles pegavam que saia “depois do das 21:09”.  A banda havia gravado uma primeira versão dela em março de 1963, na sessão da qual saiu o single “From Me to You”, mas George Martin não teria gostado dela.


For You Blue – George pretendia criar um blues simples de 12 compassos inspirado nos primeiros blues da década de 1920. George explicou:”o principal pra mim, é que é influenciada por aqueles camaradas, quando nada era profissional.” George menciona que a música que o influenciou foi “Corrina, Corrina”, de Bo Carter, gravado em 1928. “Devem ter gravado em cinco minutos. Era como eu queria fazer.” Disse ele. John respondeu: “Bom, você ainda tem mais três”.


Ge Back – Get Back surgiu com o refrão “Get back, get back to where you once belonged” e era preenchida com sons nonsense. Ao longo de três semanas, os sons foram sendo substituídos por palavras até construírem uma narrativa plausível. Paul disse: “Eu não sei sobre o que é. É sobre ir embora e aí o refrão diz ‘get back’. Na verdade, não é sobre nada.”

Chegaram a cogitar transformá-la em uma canção de protesto, com o verso “Enquanto isso, no nosso país, 20 paquistaneses habitam um grupo habitacional/ O candidato do Partido Trabalhista lhes diz qual é o plano/ E depois diz qual a realidade”. Era uma crítica ao deputado conservador Enoch Powell e sua política de reemigração. No fim, acabaram desistindo da ideia.
Musicalmente, Paul queria que “Get Back” soasse mais barulhenta e que os acordes fossem bem estridentes.




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