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Mostrando postagens de Agosto, 2019

Crônica 3 - "Você disse Hamburgo?"

Liverpool, 17 de abril de 1960
Domingo, quase duas da tarde eu, Rod Murray, e meu melhor amigo e companheiro de quarto, Stuart, saímos para encontrar um colega nosso do Liverpool College of Art, John Lennon, e os demais integrantes da sua autoproclamada ‘super banda’. Stuart, há poucas semanas, havia sido convencido por Lennon e pelo outro rapaz da banda, um tal de McCartney, a investir o seu suado dinheiro, recebido pela venda de uma de suas pinturas na sua primeira exposição, na compra de um contrabaixo Höfner President, modelo 500/5, pois assim, segundo ele, teria seu lugar assegurado na 'maior banda de Liverpool'.

Eu achava aquilo um desperdício! Stuart era um pintor brilhante que começava a despontar no circuito das artes de Liverpool e jamais havia tocado uma nota sequer, em qualquer instrumento que fosse. Mas, segundo Lennon, a imagem do jovem Sutcliffe faria bem para o layout da banda. Vai entender... Primeiro, passamos pelo Casbah Coffee Club, na 8 Hayman's Green…

A mágica e misteriosa viagem de ser um beatlemaníaco

Bom, inicialmente, é importante destacar que falar de ‘Beatles’ não é como falar de qualquer outra banda, simplesmente passando a impressão da sonoridade, se gosto ou não gosto, se tal componente é virtuoso ou não, etc. Acredito que pra quem é fã, trata-se de um assunto que é sempre tratado com mais esmero, e inclusive evitado quando não se está conversando com outro (ou outros) fã da banda, tendo em vista as especificidades das impressões que se tem.
A impressão que tenho é que os fãs de ‘Beatles’ são sempre tratados como “alternativos” demais aos demais aficionados do Rock And Roll; afinal, como gostar de rock e ao mesmo tempo de uma banda que não possui o tempo todo riffs pesados e músicas pra bater cabeça? (Aqui é importante ressaltar que eu mesmo faço essa análise com outras bandas!) Já pensei muito sobre isso e cheguei a uma conclusão um tanto quanto confusa, eu admito. E tal conclusão é a de que para se entender realmente a obra dos Fab Four, e mais do que isso, acabar seduzido…

Helter Skelter (curiosidades)

Helter Skelter é uma canção emblemática na carreira dos Beatles. Por muitos, considerada o primeiro "Heavy Metal" da história, ficou mesmo marcada pela associação com a seita liderada por Charles Manson, uma das mentes criminosas mais malignas do século XX. Para inaugurarmos nossa nova sessão "Histórias e melodias", nada melhor que uma lista de  curiosidades sobre a tridimensionalidade e vida própria que a faixa 23 (ou a 6 do Lado 3) do "White Album" ganhou ao longo dos anos, por diversas razões que abordamos abaixo. Confira!


1 – Essa é a capa da versão estendida do filme lançado em 2004, com roteiro baseado no livro de Vincent Bugliosi, que trata dos assassinatos da “Família Manson” e sua relação com a Helter Skelter. Já assistiu ao filme?

"Helter Skelter significa confusão. Literalmente. Não significa guerra com ninguém. Isso não significa que essas pessoas vão matar outras pessoas. Significa apenas o que significa. Helter Skelter é confusão. A confu…

Crônica 2 - "Toca Raunchy, George"

Liverpool, 06 de fevereiro de 1958.

Querido diário,

Hoje fui com as meninas da escola assistir ao meu primeiro show de Rock and Roll... The Quarrymen no Wilson Hall em Garston.
Os discos do Elvis que irritavam meus pais já não eram mais suficientes para saciar o meu vício. Ainda mais sabendo que Liverpool tinha bandas de rock que tocavam regularmente há mais de um ano. Eu tinha que ver de perto! Mas, eu, Peggy Smith, com apenas 15 aninhos não era 'adulta' o suficiente para poder estar rodeada de cabeludos, ouvindo aquela música do diabo... Ainda posso ouvir minha mãe dizendo essas palavras! Então, falei para os meus pais que iria dormir na casa de uma amiga, Martha Quinn, para estudarmos para a prova de aritmética do dia seguinte. Martha, era filha de mãe solteira, pois o pai havia morrido na guerra. A mãe dela, Gladys, era enfermeira no turno da noite no Hospital Wolton, na Rice Lane.  Oportunidade perfeita para irmos ao show. Pegamos o ônibus até Lowbridge Court e de lá fomos a pé…

Beatlegrafia - Revolver (1966)

“Desligue sua mente, relaxe e flutue correnteza abaixo...” canta John Lennon de forma etérea na abertura lírica da última faixa, Tomorrow Never Knows. O conselho não poderia ser mais apropriado depois da enxurrada sonora que o disco proporciona. E, convidativa também! Dá vontade de ouvir tudo de novo. E, de novo. E, de novo... Revolver começa com a contagem despretensiosa de Taxman, na qual George Harrison dá uma espetada psicodélica nos altos impostos da terra da rainha. Eleanor Rigby, talvez seja a faceta mais estranha que a pop music já tenha usado para falar de solidão até então. Até hoje ainda o é! As cordas, a melodia triste... John Lennon dá as cartas no desbunde à preguiça em I’m Only Sleeping, chamando de loucos os que o chamam de preguiçoso no mundo corrido da Swingin’ London do meio dos anos sessenta... Enquanto isso George nos fala sobre a finitude das coisas e da urgência de amar e de ser amado, no embalo de um bailão indiano chamado Love You To. Here There and Everywhere,…

My Beatles Experience – Revolver (1966)

Começando com os ‘dois pés na porta’ nossa nova coluna no Beatlelogias, coletamos depoimentos de beatlemaníacos próximos sobre suas experiências e relação com o icônico Revolver, que hoje, dia 08 de agosto, completa 53 anos de seu lançamento nos EUA, de longe o maior mercado consumidor da banda no mundo. Vamos aos depoimentos!

“Difícil falar de um álbum que volta e meia eu o tenho como favorito, e é engraçado que não foi de primeira que gostei dele. Claro, eu era jovem demais pra compreender tantas ideias diferentes,tantas harmonias envolventes e tantas melodias incrivelmente ricas. O fato é que depois que "entendi" a canção "Eleanor Rigby", depois que assimilei a ideia de um som tão rico e diferente, aí sim fui capaz de usufruir e me deliciar com o suprassumo do "FabFour". O "Revolver" consegue ser tão genuíno e ao mesmo tempo tão emblemático que eu ainda teimo em não colocá-lo em primeiro lugar no meu ranking pessoal dos álbuns dos 4 rapazes de…

Yellow Submarine - A onda lisérgica e a valorização da infância nos anos 1960

Completa-se hoje 53 anos do lançamento de "Yellow Submarine" que saiu como lado B do compacto com "Eleanor Rigby". Para celebrar a data e inaugurarmos a sessão "Beatlelogismo" do nosso blog, vamos abordar um pouco da atmosfera psicodélica da época, o crescimento do mercado cultural infanto-juvenil e tudo que cercou a criação e gravação dessa faixa icônica do álbum "Revolver".
Em meio à onda lisérgica dos anos 1960, o lançamento de uma música infantil não soava deslocada do repertório de vanguarda da época. Para os que usavam ácido, a infância não era mais um período da vida do qual se saía ao crescer, mas um estado de espírito ao qual se aspirava. Um resultado disso foi uma nova apreciação da literatura infantil à época: Títulos de literatura fantástica como “O Hobbit” de J.R.R. Tolkien, “As Crônicas de Nárnia: o leão, a feiticeira e o guarda-roupa” de C.S. Lewis, contos de fada, rimas infantis e poesias românticas como “Canções da inocência e da…

Crônica 1 - "Uma tarde em Woolton"

Liverpool, 6 de julho de 1957.

Meu nome é Peter Jones. Estudo arte dramática no Liverpool Institute. Tenho 22 anos.
Eu e alguns amigos resolvemos nos juntar para produzir um jornalzinho da escola, dirigido aos alunos, para exercitar nossa verve literária e ver o que estava acontecendo de interessante na cinzenta Liverpool.
Minha primeira missão: Fazer a cobertura da quermesse anual da igreja de São Pedro, em Woolton. O tempo estava bom, e sendo um liverpooliano, já tinha me acostumado ao verão quase frio dessas bandas do norte. Ao sair peguei um casaco, por precaução.
Me sentei sozinho no andar de cima do ônibus no caminho de ida, para organizar minhas ideias e tentar tirar algo de realmente bom de uma festinha de bairro.
Chegando lá, em meio a barraquinhas de comidas típicas, senhoras vendiam arranjos de flores e havia umas moças bem bonitas, enfermeiras, arrecadando fundos para a reforma do orfanato do Exército da Salvação, Strawberry Fields. Passei por ele no caminho para a feira.
Fui lo…